O Paço Real da Ajuda

Vista aérea do Palácio Nacional da Ajuda (www.igespar.pt)

Residência da familía real portuguesa durante o reinado de D. Luís, o Palácio da Ajuda é um dos edifícios mais emblemáticos da Lisboa do século XIX, estando intimamente ligado aos últimos anos da monarquia. Esta semana convidamo-lo a visitar este magnífico espaço, que tantas vezes passa despercebido aos habitantes da capital.

Foi depois do terramoto de 1755 que D.José, como medo de habitar edifícios “de pedra e cal”, mandou edificar no alto da Ajuda uma barraca de madeira para que ali se acolhesse a família real, escapada “por milagre” ao cataclismo que destruíu Lisboa. Durante anos, a Real Barraca (como era conhecida) albergou a corte durante cerca de três décadas, até ser destruída por um incêndio. Em 1796 iniciou-se a construção do novo palácio real, com risco de Manuel Caetano de Sousa. Este primeiro projecto, de cariz barroco, foi suspenso em 1802, quando Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva refizeram o plano para adaptar o paço ao gosto neoclássico.

Nos anos seguintes, muitas convulsões políticas – como a fuga da Família Real para o Brasil, as invasões das tropas napoleónicas e a subsequente falta de meios económicos – levaram ao constante atraso das obras.  O grandioso projecto original foi reduzido, e hoje o Palácio da Ajuda é apenas metade do que inicialmente estava projectado.

Quarto de D. Luís (www.igespar.pt)

O palácio ergue-se imponente numa das colinas de Lisboa, com uma magnífica vista sobre o Tejo. Durante o reinado de D. Luís ganhou a “a verdadeira dimensão de paço real ao ser escolhido para residência oficial da corte”, recebendo obras nos anos de 1861 e 1862, nomeadamente ao nível da decoração interior, havendo por parte do arquitecto Joaquim Possidónio Narciso da Silva o cuidado de conferir aos espaços palacianos “os então recentes padrões de conforto, privacidade e higiene, característicos da mentalidade burguesa do século XIX”. O palácio assistiria depois ao nascimentos dos príncipes D. Carlos e D. Afonso, e depois da morte do rei tornou-se a residência da sua esposa, a Rainha D. Maria Pia.

Com a implantação da República em 1910 o palácio foi encerrado, e só voltou a abrir as suas portas ao público, oficialmente, em 1968. Desde 1996, o espaço museológico do palácio tem pretendido fazer uma “reconstituição, tão aproximada quanto possível, desta residência real, e várias salas foram restauradas com base em rigorosa investigação histórica” oferecendo aos visitantes uma viagem no tempo até ao dia a dia da família real, recriando os ambientes íntimos e os espaços de eventos sociais da corte nos finais do século XIX.

Sala da música (www.igespar.pt)

A visita divide-se por dois pisos: o espaço dos aposentos privados, no piso térreo e os salões das recepções reais, no andar nobre. Das diversas colecções do museu, destacam-se as de fotografia (com mais de 7000 peças), as magníficas jóias da Coroa, o extenso espólio de pintura (que incluí óleos, aguarelas, desenhos, e pastéis), vários objectos de uso doméstico, têxteis e trajes. O palácio tem também, ao longo do ano, diversas actividades, dirigidas tanto às crianças como aos adultos. Para os mais pequenos oferece ateliers nas férias do Natal e da Páscoa, roteiros temáticos de visita para pais e professores, e as visitas guiadas pelos técnicos do palácio. Para visitantes adultos, a equipa de técnicos criou O Palácio Fora de Horas, um interessante ciclo de conferências e visitas guiadas nas últimas 3as. feiras de cada mês que “têm como objectivo divulgar a investigação levada a cabo pelos conservadores sobre as colecções do Palácio”. 

Para saber mais, clique aqui: visita virtual, Palácio Fora de Horas, roteiros de visita infantil, informações úteis.

A Maior Exposição Fotográfica do Mundo

Exposição "Lisboa Antiga", Eduardo Gageiro, na Estação do Cais do Sodré

Ao longo de todo o mês de Junho a exposição A Maior Exposição Fotográfica do Mundo vai estar patente em Lisboa, repartida por 18 núcleos espalhados pela cidade, como o Castelo de São Jorge, o Panteão Nacional ou as varandas da Rua Augusta.

Segundo a organização, o objectivo é “a consolidação com carácter regular de um evento de fotografia em Portugal, numa perspectiva de oferta cultural de grande qualidade. Por outro lado ter o maior número de fotógrafos quer nacionais quer internacionais a exporem os seus trabalhos.”.

Utilizando espaços públicos e monumentos da cidades, a fotografia em grande formato vai transformar a capital numa “imensa galeria da arte de fotografar”.

Para saber mais, clique aqui.

Vitrais pela cidade

Vitral da cabeceira da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Lisboa

 

O vitral é um “jogo de cor” que pretende decorar e dar luz ao interior dos edifícios. Usado na Idade Média nas grandes catedrais góticas com parte indissociável da leitura do espaço – porque a luz era o meio para a compreensão divina – o vitral era inicialmente feito com guias ou filetes em chumbo, de secção em U ou em H, como suporte das peças de vidro colorido que o compõem. A coloração dos vidros era obtida através da adição de óxidos de vários metais – o vermelho a partir do cobre e do ouro, o amarelo e verde a partir do ferro, e os azuis a partir do cobalto – enquanto o vidro ainda estava moldável. Era uma técnica morosa e requeria extrema perícia no desenho, no corte do vidro, na conjugação de cores. Ao longo do século XVI caiu em desuso, sendo substituído pela pintura mural e, sobretudo, pela talha dourada. Nos finais de Oitocentos o vitral voltou a ressurgir como motivo decorativo, em parte porque a industrialização permitiu novas técnicas de fabrico do vidro, mais aperfeiçoadas, mas também porque tanto a arquitectura do ferro como o betão permitiram um uso funcional dos vitrais como ponto de iluminação em átrios e vãos de escada.

Hoje propomos que descubra em Lisboa e no Porto alguns exemplares desta arte decorativa, que tantas vezes passa despercebida a que vive e trabalha nas cidades.

Na capital destacam-se duas belíssimas obras de vitral executadas no século XX, uma profana e outra sagrada, ambas parte de dois edifícios emblemáticos da Lisboa contemporânea – a Casa-Atelier José Malhoa e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Vitral da sala de jantar da Casa Malhoa (clique para ampliar)

Edificada nas Avenidas Novas, a magnífica casa neo-românica que o pintor Malhoa encomendou em 1904 ao arquitecto Norte Júnior (e que viria mais tarde a ganhar o Prémio Valmor) é decorada com uma série de vitrais, executados expressamente em Paris, na Société Artistique de Peinture sur Verre. Na sala de jantar, o grande janelão mostra um opulento vitral, com a figura de uma mulher que colhe frutos, parecendo estar no paraíso. Actualmente, o antigo atelier de José Malhoa alberga a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Grande coleccionador de obras de arte, o médico António Anastácio Gonçalves adquiriu a casa lisboeta de Malhoa em hasta pública e posteriormente legou-a ao Estado português, para que ali se fizesse um museu com as peças da sua colecção. Aproveite e conheça este pequeno museu dentro da cidade, aprecie as colecções de pintura, mobiliário e porcelana, bem como o espaço do atelier do pintor, que foi recriado.

Crucificação, coro alto da Igreja de Nª Sª Fátima

Também na zona das Avenidas Novas foi construída em 1934 – já em pleno Estado Novo – a Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Projectada pelo arquitecto Pardal Monteiro, é a primeira igreja modernista que desafiou “os códigos tradicionalistas”. O interior é decorado com vitrais de Almada Negreiros, que desenhou as composições inspirando-se nas formas usadas na Idade Média, dando-lhe uma estilização gráfica e mais moderna. Os vitrais retratam cenas como a Crucificação (no coro), a Santíssima Trindade ou os magníficos Anjos Músicos que, numa espécie de rendilhado, preenchem todo o espaço da cabeceira. Entre e deixe-se envolver por este espaço imponente mas intimista, e pelo jogo de luz e cor criado pelos seus vitrais.

Para quem vive no Porto, sugerimos uma visita ao antigo Café Imperial, na Avenida dos Aliados (que depois de restaurado passou a albergar um restaurante da cadeia MacDinald’s), onde pode apreciar os magníficos vitrais Art Déco de Ricardo Leone. Na parede do fundo, um grande painel faz alusão à produção, colheita e exportação do café brasileiro, e ao lado outro vitral retrata um casal elegante e o seu ritual de beber o café. A acompanhar estes vitrais, não deixe de apreciar os painéis de estuque tão ao gosto dos anos 30.

vitral do Antigo Café Imperial

 

Saia pela cidade, e divirta-se!

Com vista sobre a cidade: o elevador de Santa Justa

Elevador de Santa Justa (fotografia do início do século XX, arquivo Carris)

As colinas que marcam a paisagem de Lisboa constituíam, no século XIX, um  problema real em termos de acessibilidade para a população da capital, que então se deslocava a pé ou em carruagens puxadas por animais. E por isso, depois da Revolução Industrial, foram inventados novos meios de transporte de locomoção mecânica.

Em Lisboa, a partir de 1874, foram muitos os projectos apresentados à Câmara Municipal para que a cidade passasse a usufruir destes modernos meios de transporte e em 1882 o engenheiro de ascendência francesa Raul Mesnier du Ponsard recebeu da vereação uma licença para “construir e explorar” nove elevadores na cidade, dos quais cinco – da Estrela, do Chiado, da Graça, de São Julião e de São Sebastião da Pedreira – desapareceram. Subsistem os do Lavra, da Glória, da Bica e o de Santa Justa.

O Elevador de Santa Justa, ou do Carmo, foi inaugurado em 1902, sendo actualmente o único ascensor vertical que existe na cidade.  O seu projecto, também da autoria de Raul Ponsard, foi apresentado em 1900, com parte mecânica executada por Lambert d’Argent e desenhos feitos por Jacinto Augusto Mariares. O ascensor seria inaugurado dois anos depois, com máquinas a vapor; somente em 1907 a locomoção das cabines passou a fazer-se através de energia eléctrica.

O Elevador de Santa Justa é um dos poucos exemplares de arquitectura do ferro que existe em Lisboa, tendo um profundo impacto no urbanismo da baixa da cidade, não só pela sua implantação vertical mas também pela ornamentação rica e exuberante da estrutura metálica, com arcos de gosto neogótico cheios de flores, folhas e rendilhados. O sistema elevatório é constituído por duas torres metálicas com 45 metros de altura, ligadas entre si e assentes sobre dois pilares. As cabines do elevador, que se equilibram por meio de um cabo de aço, têm interior revestido a madeira e espelhos e capacidade para transportar 29 passageiros.

Este fim de semana sugerimos-lhe que faça uma viagem no tempo até ao início de Novecentos. Suba até ao Largo do

Terraço do Elevador de Santa Justa (fotografia do início do século XX, arquivo Carris)

Carmo no elegante elevador de ferro e, chegando ao último piso, aproveite e disfrute da paisagem única que a esplanada lhe oferece.

Elevador de Santa Justa (entrada pela Rua do Ouro): segunda a sábado das 07h00 às 23h00; Domingo e feriados das 09h00 às 23h00.

Arte Antiga fora de horas

Na Noite dos Museus, o Museu Nacional de Arte Antiga  promove um programa completo, com início às 19h30, que começa com um jantar livre no bar do museu.

Painéis de São Vicente (pormenor)

Pouco depois, inicia-se nos jardins o Pictionary no MNAA, uma acção de ambient media desenvolvida em colaboração com a Ogilvy para o jogo Pictionary, da Mattel. A actividade consiste na exposição de duas réplicas inacabadas das obras Retrato de D. Sebastião, de Cristóvão de Morais, e Retrato de D. Mariana d’Áustria, de Juan Mazo, exibidas amanhã na Sala dos Passos Perdidos do museu, convidando os participantes a terminar a obra. haverá também um Campeonato de Pictionary, onde os participantes serão desafiados a completar um dos Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves.

Não perca às 21h30 o concerto dos Pequenos Violinos, e às 22h assista à inauguração da exposição temporária M & M – MNAA & MUDE/ MUDE & MNAA. Artes e Design, uma parceria entre a Arte Antiga e o Museu do Design que tem por objectivo fazer compreender a interacção conceptual entre o design contemporâneo e a história das artes.

Vá até às Janelas Verdes e passe uma noite de sábado diferente.

À descoberta do Palácio!

Este sábado o Palácio Nacional da Ajuda, no âmbito da iniciativa Noite dos Museus, estará aberto ao público com inúmeras iniciativas a decorrer em simultâneo.

O convite é para uma visita ao Palácio onde pode ir descobrindo, para além das salas, as várias surpresas que foram preparadas para os visitantes e que vão desde um repasto de Vinhos e Bocadinhos, no Salão de Chá, ou de uma mostra dos álbuns de fotografias da família real, a uma exposição de faianças da collecção do PNA que, este ano, dará destaque 10 peças de Cláment Massier, exemplo da Arte Nova do Sul de França. 

Existirá ainda uma venda de livros e catálogos, a preços convidativos e algumas actividades com hora marcada, que passam pela dança, pela música e pela realização de visitas temáticas.

 Dia 14 de Maio, entre as 17.30 e as 23.00, venha descobrir o Palácio!

O mosteiro jerónimo de Belém

O claustro do Mosteiro dos Jerónimos (imagem http://www.igespar.pt)

Foi o Infante D. Henrique quem mandou construir cerca de 1460, em Belém, que então era uma praia longe da cidade, uma capela onde os marinheiros e viajantes pudessem rezar. Cerca de quarenta anos mais tarde, o rei D. Manuel deu esta pequena igreja aos frades de São Jerónimo, e começou a sua ampliação. O projecto era grandioso, e incluía a construção de um mosteiro para os frades. Uma parte deste edifício seria uma ala palaciana, destinada ao próprio rei, e a igreja seria o panteão real. E se já acham que o Mosteiro dos Jerónimos é grande, lembrem-se que o plano inicial era cerca de quatro vezes maior do que a obra efectivamente construída, tendo quatro claustros projectados! As obras começaram sob a direcção de mestre Boitaca, que ainda rasgou o portal principal (que não é o portal maior, voltado para o rio, e sim o portal que fica na direcção do altar). Mas Boitaca foi substituído a partir de 1517 por João de Castilho, o autor do magnífico portal Sul, e a quem devemos a maior parte da obra construída no mosteiro. Frente ao portal principal estende-se um longo edifício paralelo ao rio Tejo, que tem cerca de 200 metros de comprimento, e cujo piso térreo estava terminado em 1516. Não se sabe bem qual seria a sua finalidade, mas a galeria inferior serviria talvez como armazém para as mercadorias vindas da Índia e recebidas no cais do Restelo. No piso superior ficaria o palácio (ou paço) real. Mas este palácio nunca chegou a existir, e os frades acabaram por instalar os seus dormitórios no piso superior. De qualquer forma, o edifício actual foi muito alterado entre 1867 e 1878. O edifício do século XVI não tinha as torres que se levantam diante do Museu da Marinha; a igreja, por seu lado, não tinha a janela redonda (rosácea) sobre o portal principal, e a torre sineira original tinha uma cobertura em forma de pirâmide.

Ainda que a parte mais visitada do mosteiro seja a igreja, o claustro merece, só por si, uma visita demorada. É, pois, este magnifíco espaço da arquitectura manuelina que sugerimos que descubra esta semana, fazendo um percurso guiado pelos simbólicos elementos decorativos, cujo roteiro pode descarregar para impressão aqui.

Poderão também descarregar o texto da Dr.ª Sílvia Leite,  que serviu de base para a elaboração deste Roteiro, aqui.

O desenho primitivo do claustro deve-se também ao mestre Diogo de Boitaca, que projectou o andar térreo coberto por abóbada de cruzaria de ogivas entre 1514-1515. Mas em 1517 é já João de Castilho quem continua a obra até à quase total conclusão do espaço, que deixou a obra em 1540, ficando a construção das alas norte e oeste a cargo do arquitecto Diogo de Torralva.

De planta quadrada, reproduzindo a imagem tradicional da Cidade de Deus ou a Jerusalém Celeste, o claustro divide-se em dois pisos. Ao percorrer o piso inferior, pode ver nas paredes uma série de medalhões onde foram esculpidos os instrumentos da Paixão de Cristo e símbolos alusivos ao Reino, à coroa portuguesa, à Casa Real e ao próprio D. Manuel. No piso superior, onde se situavam os aposentos reais, descubra os inúmeros nichos que decoram as paredes – pequenas cavidades feitas para propositadamente ali se exporem estátuas – com imagens de santas e santos e personificações das Virtudes, como a Justiça, a Temperança ou a Fortaleza.

A escolha destas imagens não era aleatória. Se no piso térreo, os Instrumentos da Paixão de Cristo se relacionavam com a espiritualidade que era esperada dos monges Jerónimos e os convidava à meditação sobre os Evangelhos e à oração, as Virtudes e os santos escolhidos para decorar o piso superior representavam exemplos de virtude moral.

Originalmente, a zona central do claustro era um jardim que recriava a ideia bíblica do Paraíso. Ou seja, ao construir este espaço fechado onde corria água e se espalhavam árvores de fruto, o mosteiro oferecia aos seus monges um local único onde estes podiam orar, ler e meditar em silêncio. Numa das extremidades do claustro pode admirar a Fonte do Leão, que servia para que os monges lavassem as mãos antes de se dirigirem ao refeitório. Segundo a tradição, qualquer pessoa pode pedir a realização de um desejo secreto, pensando nele ao mesmo tempo que coloca a mão sobre a pata do leão.

Fonte do Leão, claustro do Mosteiro dos Jerónimos (imagem http://www.igespar.pt)