Vitrais pela cidade

Vitral da cabeceira da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Lisboa

 

O vitral é um “jogo de cor” que pretende decorar e dar luz ao interior dos edifícios. Usado na Idade Média nas grandes catedrais góticas com parte indissociável da leitura do espaço – porque a luz era o meio para a compreensão divina – o vitral era inicialmente feito com guias ou filetes em chumbo, de secção em U ou em H, como suporte das peças de vidro colorido que o compõem. A coloração dos vidros era obtida através da adição de óxidos de vários metais – o vermelho a partir do cobre e do ouro, o amarelo e verde a partir do ferro, e os azuis a partir do cobalto – enquanto o vidro ainda estava moldável. Era uma técnica morosa e requeria extrema perícia no desenho, no corte do vidro, na conjugação de cores. Ao longo do século XVI caiu em desuso, sendo substituído pela pintura mural e, sobretudo, pela talha dourada. Nos finais de Oitocentos o vitral voltou a ressurgir como motivo decorativo, em parte porque a industrialização permitiu novas técnicas de fabrico do vidro, mais aperfeiçoadas, mas também porque tanto a arquitectura do ferro como o betão permitiram um uso funcional dos vitrais como ponto de iluminação em átrios e vãos de escada.

Hoje propomos que descubra em Lisboa e no Porto alguns exemplares desta arte decorativa, que tantas vezes passa despercebida a que vive e trabalha nas cidades.

Na capital destacam-se duas belíssimas obras de vitral executadas no século XX, uma profana e outra sagrada, ambas parte de dois edifícios emblemáticos da Lisboa contemporânea – a Casa-Atelier José Malhoa e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Vitral da sala de jantar da Casa Malhoa (clique para ampliar)

Edificada nas Avenidas Novas, a magnífica casa neo-românica que o pintor Malhoa encomendou em 1904 ao arquitecto Norte Júnior (e que viria mais tarde a ganhar o Prémio Valmor) é decorada com uma série de vitrais, executados expressamente em Paris, na Société Artistique de Peinture sur Verre. Na sala de jantar, o grande janelão mostra um opulento vitral, com a figura de uma mulher que colhe frutos, parecendo estar no paraíso. Actualmente, o antigo atelier de José Malhoa alberga a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Grande coleccionador de obras de arte, o médico António Anastácio Gonçalves adquiriu a casa lisboeta de Malhoa em hasta pública e posteriormente legou-a ao Estado português, para que ali se fizesse um museu com as peças da sua colecção. Aproveite e conheça este pequeno museu dentro da cidade, aprecie as colecções de pintura, mobiliário e porcelana, bem como o espaço do atelier do pintor, que foi recriado.

Crucificação, coro alto da Igreja de Nª Sª Fátima

Também na zona das Avenidas Novas foi construída em 1934 – já em pleno Estado Novo – a Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Projectada pelo arquitecto Pardal Monteiro, é a primeira igreja modernista que desafiou “os códigos tradicionalistas”. O interior é decorado com vitrais de Almada Negreiros, que desenhou as composições inspirando-se nas formas usadas na Idade Média, dando-lhe uma estilização gráfica e mais moderna. Os vitrais retratam cenas como a Crucificação (no coro), a Santíssima Trindade ou os magníficos Anjos Músicos que, numa espécie de rendilhado, preenchem todo o espaço da cabeceira. Entre e deixe-se envolver por este espaço imponente mas intimista, e pelo jogo de luz e cor criado pelos seus vitrais.

Para quem vive no Porto, sugerimos uma visita ao antigo Café Imperial, na Avenida dos Aliados (que depois de restaurado passou a albergar um restaurante da cadeia MacDinald’s), onde pode apreciar os magníficos vitrais Art Déco de Ricardo Leone. Na parede do fundo, um grande painel faz alusão à produção, colheita e exportação do café brasileiro, e ao lado outro vitral retrata um casal elegante e o seu ritual de beber o café. A acompanhar estes vitrais, não deixe de apreciar os painéis de estuque tão ao gosto dos anos 30.

vitral do Antigo Café Imperial

 

Saia pela cidade, e divirta-se!

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